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CMTV - Conteúdo para adultos

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Na passada madrugada de sexta para sábado, após o programa de comentário social “Noite das estrelas” na CMTV, moderado por “Tia” Maya, ter comentado ao detalhe a queda de José Castelo Branco nas escadas do metro de Nova Iorque em paralelo com a amaragem da cápsula da missão Artemis II ao largo do pacífico, procedeu-se à transmissão do filme Une flame dans mon coeur (1987) de Alain Tanner, sob a insígnia “Conteúdo para adultos bloqueado”, estando a bolinha vermelha acintosamente colocada no canto superior direito da pantalha.  Para grande decepção de quem aguardava fisicalidade picante a horas de solidão soturna, trata-se de um filme delicado, meticulosamente captado pelo preto e branco de Acácio de Almeida (reputado pornógrafo), som de Joaquim Pinto, num empreendimento gerido por Paulo Branco, com direito a intervalo comercial para propaganda à Betano protagonizada por Cristina Ferreira. Pensando bem, tudo isto configura de facto "conteúdo para adultos".

Jacques Rivette - Pedinchar

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São artefactos destes que me fazem sentir grato por constatar que os bilhetes na cinemateca são o único bem que aparenta estar imune a aumentos indexados à inflação. Carta de Jacques Rivette a Henri Langlois:   Paris, 20/09/1951 Meu Senhor, Tomo a liberdade de lhe escrever, tal como a Sra. Meerson me aconselhou ontem à noite, apenas para lhe expor uma situação bastante delicada (a minha): preso, por um lado, entre o amor pelo cinema que muitas vezes guia os meus passos - surpreender-se-á com isso? - na direção da avenida de Messine, e, por outro, a doença mais funesta que existe neste mundo: a saber, a falta de dinheiro. Não teria a ousadia de expor perante os seus olhos os detalhes das minhas finanças; posso, no entanto, assegurar-lhe que isso me incomoda bastante e me impede de qualquer luxo. Enquanto me foi possível, paguei a minha quota-parte como todos; depois, com a chegada de tempos mais duros, encontraram-se entre os cérberos designados para vigiar as sombras algumas almas ...

João César Monteiro sobre 7 Balas para Selma

Durante alguns anos, entretive o meu imaginário com 3 filmes portugueses que partilhavam entre si a dificuldade que encontrava em conseguir vê-los. Chamem-lhe fetiche, mas o tempo foi para mim cavalheiro, deixando-me ao final de alguns anos almejar um sonho novo. Eram os três filmes Três Menos Eu de João Canijo, O Constructor de Anjos de Luís Noronha da Costa e 7 Balas para Selma de António de Macedo. Quanto ao filme do «arquitecto Macedo», foi o último a sair da lista, e devo dizer que pela porta dos fundos. A qualidade é discutível mas o mau gosto um quanto mais universalizável, e feliz fiquei de chegar ao fim deste inútil objetivo, ainda que com uma tontura circunstancial. Transcrevo, de seguida, o que escreveu João César Monteiro a propósito do filme do «arquitecto Macedo», por entender que há relevância na estruturação de um discurso que apela ao contraditório, e perceber que deve haver tanto ou mais empenho na formação de um texto com esse pendor adversarial. Resenhas escritas...

Dor de barriga

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      " A menina, interrompendo os enlevos do devoto moço, que se deleitava em conjecturar a zanga do conde de Melres, perguntou-lhe, com doce requebro, quando viria o dia suspirado de sua união. Vasco deteve a resposta alguns segundos e disse: - Deixemos ver se morre minha tia Quitéria, que me quer deixar os vínculos do Algarve. - Pois nós - volveu Adelaide magoada - não poderemos ser felizes sem os vínculos de tua tia Quitéria, meu Vasco? - Ninguém é feliz desobedecendo aos seus maiores - replicou Vasco. - A tia Quitéria quer que eu espere a volta de el-rei para depois tomar ordens sacras, e trazer mais uma mitra episcopal à nossa linhagem onde estavam como em vínculo as principais prelazias do reino.     Adelaide, não obstante o coração, quando aquilo ouviu, sentiu-se mal do estômago." Também eu, encontro no estômago, os primeiros sintomas da decepção.  - J

ajoelhados e ressacados

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       "1941. Yasujiro Ozu e Hiroshi Shimizu ajoelham-se em seiza para beber sake à volta do chabudai . Falam sobre os seus próximos filmes. Ozu, Toda-ke no kyōdai . Shimizu, Utajo oboegaki . Quis o destino chamado Shochiku que um fosse filmado no estúdio 7 e o outro no estúdio 8. Já se adivinha o que daí vem… “É de loucos. Acumulam garrafas como glórias.” (Kenji Mizoguchi aquando de uma visita).    À terceira semana, Yasujiro Ozu, um tanto quanto temulento, como era seu costume, confessa o porquê de filmar tanto de joelhos: está sempre ressacado; levantar-se causar-lhe-ia fortes náuseas e tonturas, e assim sempre cria um “*estilo*” (ri-se muito e gesticula estrelinhas ao dizer esta última palavra).      Ora,  Hiroshi Shimizu, com tal ritmo (difícil, mas japonês que se preze sake não rejeita), vê-se à rasca para filmar em pé. Fazer travellings torna-se insuportável. Sente, então, que a sua única escapatória é experimentar a técnica do ...

O filme da Marta e do Zé é extraordinário - GÉNESIS

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(Escola de Tagaste, Benozzo Gozzoli) No livro que dá título ao filme de Marta Ramos e José Oliveira, alguém, ao longo de seis dias, mobila uma casa que, a princípio, «era informe e vazia». Introduz luz, sementes, aves e por aí fora. E vê que tudo «isto é bom» — não como quem recorda, mas no próprio acto de criar. O mundo nasce sob um olhar que reconhece algo de bom quando o faz surgir. Esse é também o impulso que anima a dupla de cineastas: filmam uma Beira em bruto que, sendo antiga, guarda a claridade inaugural de um bom início. O filme abre a preto e branco, com as manchas do granito de um teatro grego — seriam células de uma pré-ecografia? Duas mulheres entrelaçam-se como o musgo sobre a pedra. Maria (Marta Carvalho) e Lídia (Marta Ramos), vestidas como sacerdotisas de um teatro inaugural, brincam ao tempo antigo. São actrizes de um espectáculo embargado pelo desaparecimento de Lídia. Maria parte então à sua procura. Fica por fazer uma ópera inspirada em Dom Quixote e, se seguirmo...

The name is Johnny…(risos)… Guitar

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  (Joan Crawford, muito séria, em Johnny Guitar (1954)) Escolheu o acaso associado à experiência convivencial da sala de cinema, que a sessão de hoje fosse toldada por risos e entusiasmadas gargalhadas . Não me considero um ser isento de sentido de humor, mas há para mim se calhar um limite quando roçamos as coisas sérias, como este filme, cuja gravidade tento ainda absorver ao fim deste fausto tempo. Perdoem-me a espinha dorsal demasiado erecta, a insubmissão perante este objeto desconcertante, mas quem deste filme se ri, ri-se de mim também.  Eis a volatilidade da vida em sociedade, que sem qualquer objetividade emocional, escolhe colocar as lágrimas de uns junto das gargalhadas de outros. Sr. Ray, se a intenção era o riso descomprometido, ou a palhaçada verbal, não podia a minha compreensão estar mais desvinculada de tal objetivo.  Perdoem-me, então, esta quimérica seriedade. - J

Shimizu, saltos de eixo, atração e repulsão

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É como se fosse.

The Roaring Twenties - Uma questão de escala

Dois pequeninos corpos feitos um, numa escadaria imensa, abordados numa sórdida noite de ano novo por um ignorante diligente, para quem a miséria alheia é fonte de trabalho de escriturário.  A morte enquanto fim constitucional da vida, passo último para quem nesta trama decidiu manter-se inoxidável.  Um travelling frontal, que tem em si a garra do tempo, capaz de tornar aqueles ora grandes apaixonados em mirrados restos de uma ida fartura.  Feitas as contas, há aqui um erro contabilístico impossível de saldar.  Para todas as coisas que não o sentimento, miséria ou glória são apenas uma questão de escala.

Perfeccionismo moral e Funny Face

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We also say of some people that they are transparent to us. It is, however, important as regards this observation that one human being can be a complete enigma to another. We learn this when we come into a strange country with entirely strange traditions; and, what is more, even given a mastery of the country’s language. We do not understand the people. (And not because of not knowing what they are saying to themselves.) We cannot find our feet with them.  (Ludwig Wittgenstein, Philosophical Investigations ) Uma intuição inicial que liga a epígrafe de Wittgenstein ao filme musical Funny Face (Stanley Donen, 1957), encontra-se na última frase. Quero, para já, sugerir que, embora não seja algo que tenha uma relação crucial com o filme, a metáfora de Wittgenstein, quando tomada de forma literal, pode ser aplicada à dificuldade que as personagens do filme têm em se relacionar. Em parte, encontrar os pés com outras pessoas é, metafórica, mas também literalmente, o que acontece no film...

Maurice Pialat - La gueule ouverte (1974)

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Pialat corta a vida com a morte. Quando a morte nos surge, somos confrontados com a impossibilidade de uma vida que não a respeita, uma vida que rola poluída por esta efeméride, sempre mundana e constante. São-nos dados intervalos de ausência, onde a morte alheia é sugerida de forma episódica, mas profundamente brusca. Quando a morte se assenta, quando se torna evidente e incorruptível, Pialat mostra ainda mais vida. Mais escapadinhas luxuriosas e momentos de desinspirada boçalidade protagonizados por quem apenas pode presenciar a morte de forma inutilmente contemplativa. Há aqui uma troca de ritmos sufocante. Porque se o fim fica mais feio, a vida fica mais igual e permanente. Terminamos a bordo de um carro qualquer, de costas, prontos a ser convocados para a próxima morte, onde iremos comparecer com a lição bem estudada. - J

A ordem da morte - Buffalo Bill (1944)

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Buffalo Bill (1944) não convence pela retórica anti-civilização pouco inspirada. Nem convence pela sinuosa incorporação deste herói nos arrabaldes do entretenimento aristocrático. Convence pela honestidade com que escolhe representar um Joel Mccrae inatamente aureolado e assombrado pela cruz dos feitos que foi sendo levado a protagonizar. E a verdadeira crítica não está no texto enxuto, mas antes nas subtilezas que podem ser encontradas na hipnose coletiva que aquela forma de sociedade escolhe encarnar. Em nome da civilização, marcha a engrenagem de guerra americana, que numa sincronia apoteótica, subjuga o galope de cada cavalo a um objetivo cruelmente comum. Com esta carnificina fabril, contrasta a emocional desordem da investida cheyenne, que colorida de berros catárticos nunca susteve hipótese frente à sistematização da morte. É esta a verdadeira prova de civilização : A avalanche mortuária, que mesmo (especialmente) nos momentos mais fatais insiste em ser ordeira. Chegará se c...

Sr. Traque na Dulac

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  Ontem fui ver o Gossette... Não muito longe de mim sentou-se um flatulento (aka um peidão) que de 5 em 5 minutos sacava do telemóvel para ver as horas. Talvez cronometrasse a frequência... E imaginem o perfume de tais ventosidades... Pronto. Fica o momento homenageado com este humilde retrato.  Porque ir ao cinema também tem destas coisas... Tchau, Sr. Traque.

Notas breves sobre J. S.

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- Algures na Internet diz que James Stewart entrou em cerca de 80 filmes. Só vi 15, nem um quarto. - Todos os filmes que vi em que ele entra são totalmente dominados pela sua presença. Não consigo içar as calças para ver se as meias que vesti combinam sem pensar no final extraordinário de   The Shop Around the Corner . Ele é um portento da verticalidade e tem um andar pouco gingão. Já muito se disse sobre a sua capacidade de retratar carácter, mas para mim ele   é   carácter, em todos os sentidos que a palavra pode ter. - Apercebi-me há pouco tempo que tenho uma condição psicológica que me impede de não estar presente quando passa um filme com ele. Esta condição pode ser descrita da mesma maneira exemplar que Stanley Cavell utilizou para descrever o seu apelo (de J. S.): “a willingness for suffering”. Sei que vou sofrer muito a ver e ouvir James Stewart, mas sofreria infinitamente mais se não sofresse com ele. A sua disposição para sofrer é inseparável da minha. - Vi há p...

Quanta força

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  Etc, etc Quanta força tem uma pessoa ajoelhada. Para o Rodrigo, que vê as coisas de forma molt bonica.  Los más grandes! jajaja, un muy grande abrazo,  de pé e de joelhos, até Lisboa.

de joelhos

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Para o Manel, que um dia deixou aqui uma tirinha tão bonita sobre os joelhos no chão do Japão. O Sr. João e a sua casa têm qualquer coisa de japonês, Vuvu à la Ozu. Até o pequeno artefacto vermelho ajuda. Talvez se tenham cruzado algures no périplo asiático em busca do magno Brochim — afinal, a China é já ali ao lado. Um mui saudoso abraço, Manel, de pé ou de joelhos, até Barcelona. Rodrigo, Coda :  https://www.youtube.com/watch?v=4tjwOTYh95k

EMANA

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emana, EmAna, do verbo emanar, Ema e Ana. No outro dia percebi que o mergulho de Ema levou-a até uma ribeira transmontana qualquer, seguindo um curso redentor que não vimos. Numa elipse místicomaluca, como esta tirinha. A queda e a ascensão da mesma ninfa, que no fim se molha e no início se enxuta. Um fim mergulhado que emana um início por secar. Ah, aquela auréolíngua de vapor de água que Ana exala à luz da noite de Inverno. Ah, como se ainda fosse a aba do chapéu de Ema, com o mesmo azul daquele laço à luz do sol do último dia de Outono.  Rodrigo

Easy Street

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E as paisagens...

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    "E as paisagens maravilhosas, trágicas ou prodigiosas, entram na sinfonia mutável para aumentar o seu sentido humano ou para introduzir o seu sentido sobrenatural, como num céu tempestuoso de Delacroix, ou num mar de prata de Veronese."   - Elie Faure

Ver de perto o que está longe

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     Quando penso na ideia de filmar corridas de touros, é inevitável recordar as noites constrangedoras da RTP e as emissões pseudo-desportivas vindas do outro lado da fronteira. Não surpreende a aversão de muitos ao televisionamento do que acontece numa praça de touros. Albert Serra, felizmente, filmou de outro modo o métier do toureiro-popstar da actualidade, Andrés Roca Rey. O cenário do filme, o mundo das touradas, é uma dessas rachaduras que de quando em quando alimentam os noticiários e os debates em torno de prós e contras. Convoca todos os tipos de curiosos — vi-os reunidos na mesma sala. Uns, em excursão, convencidos de que iriam a uma tourada na 5 de Outubro, motivados pelo tio aficionado e pelo que leram na ¡Hola! sobre a fisionomia do príncipe destemido; gritaram olés , bateram palmas, e alguns concordaram em coro: «isto é melhor do que ao vivo». A outra tribo tapou os olhos e suspirou com repugnância. Todos couberam ali, incluindo os restantes. Uns afirmam ...