Perfeccionismo moral e Funny Face
We also say of some people that they are transparent to us. It is, however, important as regards this observation that one human being can be a complete enigma to another. We learn this when we come into a strange country with entirely strange traditions; and, what is more, even given a mastery of the country’s language. We do not understand the people. (And not because of not knowing what they are saying to themselves.) We cannot find our feet with them.
(Ludwig Wittgenstein, Philosophical Investigations)
Uma intuição inicial que liga a epígrafe de Wittgenstein ao filme musical Funny Face (Stanley Donen, 1957), encontra-se na última frase. Quero, para já, sugerir que, embora não seja algo que tenha uma relação crucial com o filme, a metáfora de Wittgenstein, quando tomada de forma literal, pode-se aplicar à dificuldade das personagens do filme se relacionarem entre si. Em parte, encontrar os pés com outras pessoas é, metafórica, mas também literalmente, o que acontece no filme, algo que se traduz em processos de reconhecimento que são à vez dominados pela fala e pela dança. Como é o caso em muitos filmes musicais, os números de dança podem ser tão importantes na narrativa como os diálogos, não constituindo necessariamente um afastamento da conversa, mas uma maneira diferente de conversar.
Um dos problemas principais do filme, que é, creio, tematizado no mesmo, é a dificuldade de imaginarmos mundos que não sejam o nosso como tendo validade. Um outro problema é não saber como lidar com a nossa própria mudança enquanto pessoas, especialmente num curto espaço de tempo, e como isto se relaciona com a forma com que interagimos com pessoas diferentes de nós.
Jo Stockton (Audrey Hepburn) trabalha numa livraria e gosta muito de filosofia. Admira particularmente um filósofo francês chamado Émile Flostre, um especialista em “empathicalism”. Jo descreve esta teoria filosófica como “the most sensible approach to true understanding and peace of mind”. Dick Avery (Fred Astaire) é fotógrafo de uma revista de moda editada por Maggie Prescott (Kay Thompson). Um dia, a editora da revista e a sua entourage (incluindo Dick) saem à procura de um cenário novo e encontram a livraria onde Jo trabalha.
Depois de Jo expressar o seu desprezo pelo tipo de trabalho que têm, crendo que é uma actividade superficial (“[Fashion magazines are] chi-chi and an unrealistic approach to self-impressions as well as economics”), é levada aos escritórios da revista onde tentam alterar a sua aparência para a fotografar. Jo esconde-se numa câmara escura onde Dick está a revelar fotografias, em particular uma dela. Como Jo não acredita que a sua aparência física seja interessante para ser fotografada (acha que tem uma “funny face”), Dick mostra-lhe uma ampliação de uma fotografia sua e cantam e dançam “Funny Face”. Esta cena marca o momento em que Jo se vê aberta à possibilidade de que a forma como é vista é diferente da forma como se vê. Descrevendo em simultâneo a descoberta de sentimentos por alguém, Dick, e esta forma alternativa de se ver, Jo canta o seguinte verso: “I know how Columbus felt, finding another world”. Stanley Cavell, a propósito de uma peça de Beckett, diz o seguinte:
But any relationship of absorbing importance will form a world, as the personality does. And a critical change in either will change the world. The world of the happy man is different from the world of the unhappy man, says Wittgenstein in the Tractatus. And the world of the child is different from the world of the grown-up, and that of the sick from that of the well, and the mad from the un-mad. This is why a profound change of consciousness presents itself as a revelation, why it is so difficult, why its anticipation will seem the destruction of the world: even where it is a happy change, a world is always lost. (Must We Mean What We Say?, p. 118)
É notável que uma situação que parece superficial (um “unrealistic approach to self-impressions”) possa significar algo muito mais importante: a descoberta de outro mundo para Jo é a descoberta de outra forma de se ver e, mais que isto, uma forma que implica outras pessoas.
Como a aceitação de se tornar modelo para a revista implica uma ida a Paris, uma proposta atraente visto que quer ouvir e conhecer o Professor Flostre, Jo decide que não se importa de fazer esse sacrifício e partem.
Jo descobre o lado boémio e intelectual de Paris, onde se sente ouvida (apesar de ninguém perceber o seu inglês). Jo e Dick conseguem trabalhar juntos e tirar fotografias. O filme dedica algum tempo nesta parte a mostrar diferentes cenários para fotografias de Jo visto que Dick lhe pede que se imagine nestes diferentes cenários: a chorar por um amor que se vai embora, feliz na Primavera com os braços cheios de flores, Isolde enraivecida com Tristan; a aplicar “empathicalism” à fotografia. Num dos dias, Jo está vestida de noiva e Dick apercebe-se de que ela também tem sentimentos por ele.
Após alguns desastres que fazem com que Jo fuja, e depois de descobrirem que foi convidada pelo Professor Flostre para o seu salão, Dick e Maggie decidem ir lá buscá-la. Dizem-lhes que “those empathicalists have a very firm way of dealing with what they call ‘hostile vibrations’”; Maggie diz a Dick: “Well, what say we turn into a couple of friendly vibrations?” ao que ele responde “You know the old saying: ‘If you can’t lick ‘em, join ‘em’”. Quando chegam ao salão disfarçados de intelectuais (“Well, how do I look? Grubby enough?” “Yeah, how’s the beard?” “Full of pizzazz.”), e depois de fingirem ser um casal de performers, Dick e Maggie têm de dar um espectáculo. Num número musical aparentemente normal, apercebem-se de que têm de disfarçar o que normalmente fazem com laivos do que acham que é esperado deles do seu público, e conseguem misturar ambos. Quando encontram Jo a falar com Flostre, fingem querer aprender com ele sobre “empathicalism”. Jo sabe que o estão a enganar (ela conhece ambos os lados, por assim dizer) e fica transtornada. Depois de Dick e Maggie serem expulsos, Flostre impõe-se sexualmente a Jo, ao que ela fica assustada e indignada (“I came here to talk with a philosopher. You’re talking like a man!”). Jo consegue escapar e procura ancorar-se no que lhe era estranho, mas que passou a ser familiar (Dick e o seu mundo) ao ir ter com Maggie, à procura de Dick. Quando lhe dizem que ela não pode ir ter com Dick por ter de ficar a modelar, segue-se um pequeno diálogo de grande relevância:
JO: Maggie, that’s empathy!
Jo passa a maior parte do filme convencida de que os outros não sabem o que é ser empático, de que é preciso uma teoria filosófica para não só justificar que queremos saber dos outros, mas também que uma vida empática é conseguida apenas a reflectir sobre esta teoria com pessoas que já concordam connosco.
Jo acaba por conseguir encontrar Dick e ficam juntos no final. A tensão amorosa durante o filme é uma boa forma de justificar como as personagens e os elementos do filme se ligam, mas o mais recorrente é o tema da empatia. Não importa muito se as intenções são amorosas ou profissionais. Chegar à conclusão de que conseguimos meter-nos no lugar de outros não é só uma prova de amor ou de trabalho: é o reconhecimento de que as formas de vida de outras pessoas, de outras comunidades (de outros mundos), têm a mesma validade até prova em contrário, e que a sua rejeição a priori diz mais sobre o nosso mundo do que o dos outros.
James



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