João César Monteiro sobre 7 Balas para Selma
Durante alguns anos, entretive o meu imaginário com 3 filmes portugueses que partilhavam entre si a dificuldade que encontrava em conseguir vê-los. Chamem-lhe fetiche, mas o tempo foi para mim cavalheiro, deixando-me ao final de alguns anos almejar um sonho novo. Eram os três filmes Três Menos Eu de João Canijo, O Constructor de Anjos de Luís Noronha da Costa e 7 Balas para Selma de António de Macedo.
Quanto ao filme do «arquitecto Macedo», foi o último a sair da lista, e devo dizer que pela porta dos fundos. A qualidade é discutível mas o mau gosto um quanto mais universalizável, e feliz fiquei de chegar ao fim deste inútil objetivo, ainda que com uma tontura circunstancial.
Transcrevo, de seguida, o que escreveu João César Monteiro a propósito do filme do «arquitecto Macedo», por entender que há relevância na estruturação de um discurso que apela ao contraditório, e perceber que deve haver tanto ou mais empenho na formação de um texto com esse pendor adversarial.
Resenhas escritas na sanita, ou elogios primaveris (sejamos sinceros) apenas sucedem na instigação de uma irritante alergia sazonal.
Aqui se segue o texto, com toda a sua cáustica grandiosidade. É também incluída a respetiva introdução, incluída em MORITURI TE SALUTANT, editado pela & etc em 1974.
“A
ambição dos jovens cineastas, inventando uma etiqueta chamada
CINEMA
NOVO, muleta para as suas limitações, será a sua perdição”.
ANTÓNIO DA CUNHA TELLES
(produtor da Cine-Novo)
ADVERTÊNCIA:
Vai para mais de um ano que redigi o texto, ora tornado público, sobre 7
Balas para Selma. Não voltei sequer a lê-lo, e não tenciono mudar uma
vírgula que seja. Esta rigorosa disciplina de nada alterar fora do prazo que
foi concedido à gestação das coisas aprende-se no cinema e torna-se perigoso
não a sustentar em tudo o mais. Quando se descobre que se errou um plano, no
dia seguinte a ter sido filmado, há que arcar com o erro e não voltar mais a
pensar na possibilidade de o corrigir. Também o que está escrito está escrito,
e sobre o que, então, escrevi não tenho uma razoável nitidez. Ainda bem: era
capaz de ceder ao desejo de submeter o texto a profundas alterações. Uma coisa,
no entanto, gostaria de deixar bem explícita: a mediocridade que, por razões
meramente estratégicas, assacava exclusivamente a 7 Balas Para Selma,
considero-o hoje extensiva a toda a obra de António de Macedo e isso apenas
porque, entretanto à margem de toda e qualquer espécie de protecção, se foram,
apesar de tudo, criando condições que possibilitam o surgimento de um Cinema
Novo em Portugal.
Um ano volvido, e sem o menor
receio de que alguém se ria, é possível deixar aqui escrito o seguinte: 7 Balas
Para Selma começou por ser uma produção de António da Cunha Telles, que se
lançou no empreendimento sacrificando o projecto de Uma Abelha Na Chuva de
Fernando Lopes. Porém, o passado mês de Dezembro assinalou o terminus das
filmagens do filme do Fernando, e a sua estreia não tardará muito. Será,
portanto, a estreia festiva de uma dura jornada, ganha palmo a palmo, que
compromete todas as pessoas empenhadas na sobrevivência de um cinema que seja
prova de uma intransigente austeridade profissional.
Segue-se o texto, mas, antes, queria advertir o leitor que
onde digo que nada tenho de pessoal contra o arq.º António de Macedo, deve
ler-se precisamente o contrário.
Afinal, não resistir à tentação de alterar.
«7 BALAS PARA SELMA» DE ANTÓNIO DE MACEDO
«O sono da razão gera
monstros»
Goya
É doloroso para
um cidadão observar os estranhos fenómenos que se enxertam na realidade
cultural portuguesa e, cada vez mais, lhe desfiguram o cariz. Dir-se-ia que
aquilo que outrora era surpreendente excepção, passou, por via de tirânicos
abusos, a ser norma (ou não será isto um vasto Entroncamento?) e codificado
substituto das cívicas regras que são condição da árdua condição nossa.
Eis-nos chegados ao tempo do
quanto pior melhor, diria o João Rodrigues se pudesse ter continuado a viver, a
este estado de coisas insolúvel em que até os monstros não ofendem porque
tiveram tratador que os amestrasse, e com um pouco de sorte consegue-se que nos
venham comer à mão.
Não adianta
sabermo-nos progressivamente espoliados, mas gostaríamos de afastar de uma vez
a pequena Cassandra que nos faz pressentir o saque irremediável de todos os
bens que por aí, talvez, ainda se tragam dissimulados.
Não nos move
qualquer antipatia pessoal ao arquitecto António de Macedo, autor de um
documentário assaz curioso sobre ginástica de pausa, de uma longa-metragem
(Domingo à Tarde) bastante cuidada, mau grado as objecções que se lhe possam
apontar e, finalmente, de 7 Balas Para Selma, que aqui nos traz sem a menor
indignação particular. Que isso acontecesse era certamente o que o Sr. Macedo
quereria, mas espectador ideal seu, confesso que não consigo ser. Devo mesmo
elucidá-lo que se achasse o empreendimento só o enterrava a si, não me daria
sequer ao trabalho de o carpir. Digamos que por secura emocional. Mais que
fazer do que pensar em si e nas suas fitas. O que, todavia, acontece é que numa
altura em que contra tudo (o estado vigente) e contra todos (a idiotia
dominante) ainda há quem se bata por maior ou menor arreganho, com maior ou
menor desespero, mas com igual nobreza e isenção, por um cinema que seja
expressão viva e verdadeira da anacrónica realidade que habitamos (não estou a
falar de cine-clubes nem do Eng.º Gil), um filme como 7 Balas Para Selma só
pode ser encarado como empresa reacionária, carregada de balas que se desfecham
traiçoeiramente nas costas dos promotores de uma revolução cinematográfica em
Portugal.
E isto porquê? Perguntará o
leitor que (como de costume) está a pensar que não é tanto assim, que o autor
destas linhas é maluco com delírios persecutórios (o que, aliás, é verdade),
Antes de darmos resposta à questão, recapitulemos alguns pontos que constituem óbices maiores para a existência de um Cinema Novo em Portugal:
1 – Nunca se conseguiu criar no cinema nacional uma estrutura industrial suficientemente sólida.
Assim, os escassos produtos que se fabricam não obedecem a qualquer planificação económica e estão sujeitos aos caprichos de iniciativas mais ou menos aventurosas que, tarde ou cedo, se têm revelado deficitárias.
2 – Nunca se fez um estatuto satisfatório do mercado, mas é de admitir que internamente não há condições (tese produtores-distribuidores-exibidores) para que o consumidor garanta a sobrevivência de quem lhe forneça produtos com exigências inabituais.
Podemos, contudo, aventar muito por alto que em cada 10 Sarilhos
de Fraldas há 1 rentável e que filmes como Verdes Anos e Belarmino
têm sensivelmente amortizado o custo da produção. Ressalta, e isso é que
importa, que o facto de determinado filme de qualidade não ter perdido
dinheiro, não significa dizer que ganhou e, por isso, torna-se quase
indispensável o recurso a subvenções oficiais. Aos 18 de Fevereiro de 1948 é
criado o Fundo do Cinema Nacional por decreto-lei nº 2027 de que a seguir
transcrevemos alguns artigos:
Art.
1.º - A fim de proteger, coordenar e estimular a produção do cinema nacional e
tendo em atenção a sua função social e educativa, assim como os seus aspectos
artístico e cultural, é criado o Fundo do Cinema Nacional.
Sobre
a aplicação das disponibilidades do Fundo:
Art.
7.º - As disponibilidades do fundo serão aplicadas:
1 – A concessão
às entidades produtoras de filmes portugueses de subsídios destinados a cobrir
parte do custo desses filmes;
3 – A
prémios destinados a distinguir os filmes de maior mérito artístico e técnico e
os artistas e técnicos que neles intervierem;
5 – A
subsídios destinados a intensificar a produção de filmes de curta metragem,
facilitando assim a revelação de novos valores da cinematografia nacional;
6 – À
criação e instalação de uma cinemateca nacional.
Sobre a definição de filme português:
Art. 11.º
- Só é considerado filme português, para efeitos de protecção estabelecida
nesta lei, aquele que obedecer cumulativamente às seguintes condições:
a)
Ser falado em língua portuguesa;
b)
Ser produzido em estúdios e laboratórios
pertencentes ao Estado ou a empresas portuguesas instaladas em território
português;
c)
Ser representativo do espírito português, quer
traduza a psicologia, os costumes, as tradições, a história, a alma coletiva do
povo, quer se inspire nos grandes temas da vida e da cultura universais.
Damos a seguir a lista oficial do
Grande Prémio do Cinema atribuído pelo S.N.I. desde 1944 e «destinado ao melhor
filme português de longa metragem apresentado em cada ano, galardoando o
produtor e o realizador.» Referiremos, a partir de 1963, a existência de outras
produções concorrentes.
1944 – Jorge Brum do Canto e
César de Sá pela realização do filme Um Homem às Direitas.
1945 – António Lopes Ribeiro pela
produção do filme A Vizinha do Lado.
1945 – António Lopes Ribeiro pela
produção do filme Camões e Leitão de Barros pela realização do mesmo filme.
1947 – Perdigão Queiroga pela
realização do filme O Fado.
1953 – Jorge Brum do Canto pela
realização do filme Chaimite.
1958 – Filipe Solms pela produção
do filme Rapsódia Portuguesa e João Mendes pela realização do mesmo filme.
1959 – Henrique Campos pela
realização do filme A Luz Vem do Alto.
1960 – Perdigão Queiroga pela
realização do filme As Pupilas do Sr. Reitor.
1961 – Augusto Fraga pela
realização do filme Raça.
1962 – Filipe Solms pela produção
do filme Retalhos da Vida de um Médico e Jorge Brum do Canto pela
realização do mesmo filme.
1963 – Não foi atribuído por
nenhum dos filmes ter merecido tal distinção. Paulo Rocha realizou Verdes
Anos (Prémio para a primeira obra no Festival de Locarno) e Manuel de
Oliveira realizou Acto da Primavera (Grande Prémio do Festival dos Povos
da cidade de Florença).
1964 – António da Cunha Telles
pela produção do filme As Ilhas Encantadas e Carlos Villardebó pela
realização do mesmo filme. Fernando Lopes realizou Belarmino, que obtém o
prémio para a melhor fotografia.
1965 – Não foi atribuído por nenhum
dos filmes ter merecido tal distinção. António de Macedo realizou Domingo à
Tarde.
No que toca a subsídios,
Paulo Rocha e Fernando Lopes nunca receberam nenhum. Manuel de Oliveira foi
amplamente subsidiado para fazer o Acto da Primavera, e António de
Macedo recebeu um subsídio para Domingo à Tarde, depois do filme
pronto, e um empréstimo reembolsável de 250 000$00 para 7 Balas para
Selma.
Deixando ao leitor a tarefa de tirar
conclusões de tudo isto, limitemo-nos ainda, e sem quaisquer comentários, a
assinalar o facto importante de que desde que em 1957 se criou, como orgão
oficial de Informação, a Rádio Televisão Portuguesa, o interesse das entidades
governamentais pelas questões de cinema decaiu quantitativamente, como por
coincidência.
O que começa por nos entristecer no
filme do arquitecto Macedo é a complacência do projecto. Pior: a pobre e vã complacência.
Vem à memória o triste abandono da barregã a quem o cliente, no fim, não paga.
E não pagar equivale a destruir a razão de ser do acto, a ser-se duplamente
enganado. Tratava-se de executar a contento um sub-produto (pensavam os
mentores do arquitecto) que continuassem o sucesso do filão Bond, e o
arquitecto talvez tenha pensado que podia, a golpes de habilidade (ó vaidade),
disfarçar a indigência da phinança produtora. Que ninguém ia enriquecer graças
à espionagem internacional mais a celulite das coxas da Florbela, adivinhava-se
logo. Só me espanto é como os phinanceiros, que eram os principais interessados,
se metem a fazer um filme que independentemente do facto de não dever ser feito
(por razões morais) não podia ser feito (em termos da mais elementar
rentabilidade) sem um investimento monstro e, portanto, incomportável com os
recursos existentes. Mas, então, se este projecto assenta numa base falsa, se
não era para enriquecer, para que e porque seria? Temos que a phinança, além de
phinança é estúpida? Temos que o arquitecto, além de arquitecto é cineasta que
os vai (Je les ai eu) enganar a todos? Só que (azar) o Bond já não está a dar
tanto, mas dá ainda muito mais que os seus sub. Só que (azar ainda) o Macedo
não é pau para toda a obra como isso e tem lá umas na cabeça que não se ajustam
muito bem com aquilo que o público poderia aguardar. Aqui, convenhamos que a
phinança escolheu o wrong man, mas também não tinha muito mais por onde
escolher porque ainda há muito boa gente para quem «afinal o que importa não é
bem o negócio...»
Um realizador
que é solicitado para executar uma obra com intuitos tão eminentemente
mercantis (apesar de aqui e além se dar ao luxo de juntar àquela salsada toda
algo das suas obsessões privadas, ou melhor, das suas obsessivas
infantilidades) e não consegue apanhar o público, falhando, portanto, o seu propósito,
é um mau mercador, logo, um incompetente. As razões do fracasso devem-se, em
meu entender, ao seguinte:
1 – à debilidade do argumento em
que as situações se arrastam e repetem com mais ou menos variantes.
2 – a uma montagem que por
inépcia faz constantemente saltar o ritmo das cenas de acção intensa.
Ex.: A violência do filme nunca
repousa no movimento físico do actor no plano, mas no raccord que procura
eliminá-lo.
3 – Numa impotência de erotizar a
personagem incarnada por Florbela Queirós, aliás Sónia, aliás Selma, apesar das
amiúdes tentativas frustes. Grandes planos da boca, seios, costas, pés, peças íntimas,
etc. O modo como durante todo o filme é tratada como objecto de fruição erótica,
mais acentua o carácter dessa frustração. E não há nada pior em cinema do que
dar uma nega na vedeta. O plano em que Florbela ajuda a tirar os cadáveres do
apartamento do Sinde Filipe, aliás Sérgio, e avança com o rabo quase até grande
plano, além de ser repugnante (não o rabo, mas o olhar sobre), parece-me
sintomático do que acabei de afirmar.
Diria ainda que
o mais confrangedor é a sensação de 7 Balas Para Selma ser o filme de um tipo
vencido pelo sistema e que só é capaz de sobreviver colaborando com o sistema que
o bate. Tragédia, só a da recusa integral. Não entendo a da abdicação, talvez
por não ser tocado por piedoso catolicismo, nem isso grandemente importa.
Importa, sim, a batalha comum por um Cinema Novo que o senho Macedo desacredita
com esta Selma escancarada a toda a inanidade, a permitir a risada fora de
tempo de um público que, afinal, paga na mesma moeda o pouco respeito com que é
tratado.
Falei atrás das
obsessivas infantilidades do Sr. Arquitecto. É, com efeito, alarmante a ideia
que António de Macedo se faz do mundo, das pessoas e do cinema, como não podia
deixar de ser. Note-se que até penso que o arquitecto é apenas um pobre Diabo
descontente com a judiciosa autoridade de Deus e para quem as luciferinas
provocações são pretexto exibicionista para alertar a atenção do Todo Poderoso,
mas sem que, por alguma vez, sejam postos em causa os fundamentos de uma Ordem
que tão necessária lhe é.
Assim, a
pretensa crueldade, a gratuita maldadezinha, são os embustes grosseiros de uma
incapacidade bem mais terrível que é a de um homenzinho que se borra
publicamente diante da morte (é neste exacto sentido que as suas obsessões me
parecem pouco adultas) e que face a esse terror fundamental não encontra outra
resposta que não seja a do espetáculo grotesco da sua própria imagem. Como a
criança que pergunta «ó mãe, a morte dói?» e a quem respondem: «não diga
disparates e vá arrumar os brinquedos».
Talvez o arquitecto Macedo tenha
encontrado na caricatura da reminiscência medieval a fórmula indolor, talvez o
console a rebuscada invenção dos martírios que atravessam um filme que se
estafa em lugares-comuns, em escassas e pouco inspiradas invenções, mas, apesar
de tudo, gostaríamos de lhe perguntar: será que o amor dói assim tanto e tão insuportavelmente?
Será que existir fora do conforto uterino é assim tão irremediável?
In «O Tempo e o Modo»
n.º
67 de Janeiro de 1969
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