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João César Monteiro sobre 7 Balas para Selma

Durante alguns anos, entretive o meu imaginário com 3 filmes portugueses que partilhavam entre si a dificuldade que encontrava em conseguir vê-los. Chamem-lhe fetiche, mas o tempo foi para mim cavalheiro, deixando-me ao final de alguns anos almejar um sonho novo. Eram os três filmes Três Menos Eu de João Canijo, O Constructor de Anjos de Luís Noronha da Costa e 7 Balas para Selma de António de Macedo. Quanto ao filme do «arquitecto Macedo», foi o último a sair da lista, e devo dizer que pela porta dos fundos. A qualidade é discutível mas o mau gosto um quanto mais universalizável, e feliz fiquei de chegar ao fim deste inútil objetivo, ainda que com uma tontura circunstancial. Transcrevo, de seguida, o que escreveu João César Monteiro a propósito do filme do «arquitecto Macedo», por entender que há relevância na estruturação de um discurso que apela ao contraditório, e perceber que deve haver tanto ou mais empenho na formação de um texto com esse pendor adversarial. Resenhas escritas...

O Sr.Ford e o até (ou para) sempre

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Em atualização. Mais ou menos organizado. Duty leads people astray. (Tag Gallagher) They, looking back, all the eastern side beheld  Of Paradise, so late their happy seat,  Waved over by that flaming brand, the gate  With dreadful faces thronged and fiery arms.  Some natural tears they dropped, but wiped them soon;  The world was all before them, where to choose  Their place of rest, and Providence their guide:  They hand in hand, with wandering steps and slow,  Through Eden took their solitary way. (John Milton)

Dor de barriga

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      " A menina, interrompendo os enlevos do devoto moço, que se deleitava em conjecturar a zanga do conde de Melres, perguntou-lhe, com doce requebro, quando viria o dia suspirado de sua união. Vasco deteve a resposta alguns segundos e disse: - Deixemos ver se morre minha tia Quitéria, que me quer deixar os vínculos do Algarve. - Pois nós - volveu Adelaide magoada - não poderemos ser felizes sem os vínculos de tua tia Quitéria, meu Vasco? - Ninguém é feliz desobedecendo aos seus maiores - replicou Vasco. - A tia Quitéria quer que eu espere a volta de el-rei para depois tomar ordens sacras, e trazer mais uma mitra episcopal à nossa linhagem onde estavam como em vínculo as principais prelazias do reino.     Adelaide, não obstante o coração, quando aquilo ouviu, sentiu-se mal do estômago." Também eu, encontro no estômago, os primeiros sintomas da decepção.  - J

ajoelhados e ressacados

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       "1941. Yasujiro Ozu e Hiroshi Shimizu ajoelham-se em seiza para beber sake à volta do chabudai . Falam sobre os seus próximos filmes. Ozu, Toda-ke no kyōdai . Shimizu, Utajo oboegaki . Quis o destino chamado Shochiku que um fosse filmado no estúdio 7 e o outro no estúdio 8. Já se adivinha o que daí vem… “É de loucos. Acumulam garrafas como glórias.” (Kenji Mizoguchi aquando de uma visita).    À terceira semana, Yasujiro Ozu, um tanto quanto temulento, como era seu costume, confessa o porquê de filmar tanto de joelhos: está sempre ressacado; levantar-se causar-lhe-ia fortes náuseas e tonturas; e assim sempre cria um “*estilo*” (ri-se muito e gesticula estrelinhas ao dizer esta última palavra).      Ora,  Hiroshi Shimizu, com tal ritmo (difícil, mas para japonês que se preze sake não se rejeita), vê-se à rasca para filmar em pé. Fazer travellings torna-se insuportável. Sente então que a sua única escapatória é experimentar a técni...

O filme da Marta e do Zé é extraordinário - GÉNESIS

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(Escola de Tagaste, Benozzo Gozzoli) No livro que dá título ao filme de Marta Ramos e José Oliveira, alguém, ao longo de seis dias, mobila uma casa que, a princípio, «era informe e vazia». Introduz luz, sementes, aves e por aí fora. E vê que tudo «isto é bom» — não como quem recorda, mas no próprio acto de criar. O mundo nasce sob um olhar que reconhece algo de bom quando o faz surgir. Esse é também o impulso que anima a dupla de cineastas: filmam uma Beira em bruto que, sendo antiga, guarda a claridade inaugural de um bom início. O filme abre a preto e branco, com as manchas do granito de um teatro grego — seriam células de uma pré-ecografia? Duas mulheres entrelaçam-se como o musgo sobre a pedra. Maria (Marta Carvalho) e Lídia (Marta Ramos), vestidas como sacerdotisas de um teatro inaugural, brincam ao tempo antigo. São actrizes de um espectáculo embargado pelo desaparecimento de Lídia. Maria parte então à sua procura. Fica por fazer uma ópera inspirada em Dom Quixote e, se seguirmo...

The name is Johnny…(risos)… Guitar

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  (Joan Crawford, muito séria, em Johnny Guitar (1954)) Escolheu o acaso associado à experiência convivencial da sala de cinema, que a sessão de hoje fosse toldada por risos e entusiasmadas gargalhadas . Não me considero um ser isento de sentido de humor, mas há para mim se calhar um limite quando roçamos as coisas sérias, como este filme, cuja gravidade tento ainda absorver ao fim deste fausto tempo. Perdoem-me a espinha dorsal demasiado erecta, a insubmissão perante este objeto desconcertante, mas quem deste filme se ri, ri-se de mim também.  Eis a volatilidade da vida em sociedade, que sem qualquer objetividade emocional, escolhe colocar as lágrimas de uns junto das gargalhadas de outros. Sr. Ray, se a intenção era o riso descomprometido, ou a palhaçada verbal, não podia a minha compreensão estar mais desvinculada de tal objetivo.  Perdoem-me, então, esta quimérica seriedade. - J

Shimizu, saltos de eixo, atração e repulsão

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É como se fosse.