O filme da Marta e do Zé é extraordinário - GÉNESIS
(Escola de Tagaste, Benozzo Gozzoli) No livro que dá título ao filme de Marta Ramos e José Oliveira, alguém, ao longo de seis dias, mobila uma casa que, a princípio, «era informe e vazia». Introduz luz, sementes, aves e por aí fora. E vê que tudo «isto é bom» — não como quem recorda, mas no próprio acto de criar. O mundo nasce sob um olhar que reconhece algo de bom quando o faz surgir. Esse é também o impulso que anima a dupla de cineastas: filmam uma Beira em bruto que, sendo antiga, guarda a claridade inaugural de um bom início. O filme abre a preto e branco, com as manchas do granito de um teatro grego — seriam células de uma pré-ecografia? Duas mulheres entrelaçam-se como o musgo sobre a pedra. Maria (Marta Carvalho) e Lídia (Marta Ramos), vestidas como sacerdotisas de um teatro inaugural, brincam ao tempo antigo. São actrizes de um espectáculo embargado pelo desaparecimento de Lídia. Maria parte então à sua procura. Fica por fazer uma ópera inspirada em Dom Quixote e, se seguirmo...