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Perfeccionismo moral e Funny Face

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We also say of some people that they are transparent to us. It is, however, important as regards this observation that one human being can be a complete enigma to another. We learn this when we come into a strange country with entirely strange traditions; and, what is more, even given a mastery of the country’s language. We do not understand the people. (And not because of not knowing what they are saying to themselves.) We cannot find our feet with them.  (Ludwig Wittgenstein, Philosophical Investigations ) Uma intuição inicial que liga a epígrafe de Wittgenstein ao filme musical Funny Face (Stanley Donen, 1957), encontra-se na última frase. Quero, para já, sugerir que, embora não seja algo que tenha uma relação crucial com o filme, a metáfora de Wittgenstein, quando tomada de forma literal, pode-se aplicar à dificuldade das personagens do filme se relacionarem entre si. Em parte, encontrar os pés com outras pessoas é, metafórica, mas também literalmente, o que acontece no filme...

Dorsky (rascunho)

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  Dorsky parece ter arranjado uma forma de confessar, sem utilizar palavras que são as do dia, ou mesmo, embora pudesse ser algo mais próximo disso, as da noite. É uma espécie de combate de dentro do analfabetismo para fora. Não são só imagens e cortes, estou seguro; é a comunhão da sombra e do silêncio, com a luz e a palavra. A luz entrega o mundo; a sombra enche-o, comunga-o. (Pascoaes) Essa forma, mais do que do sermos multidões, vem do sentirmos ser multitudes. Do sentirmos ser todos, enquanto somos pedras, árvores, frutos, animais, terras, mares e mundos; luas, estrelas, dias e noites; luzes e sombras; verbos e silêncios - e eis tudo. É o que acontece no Triste - palavra vertical capaz de evocar até ao seu contrário. Esse título, que se nos mostra no início, contamina tudo; e esse tudo contrasta, ou melhor, comunga. (Note-se que começa e acaba na "desintegração")

Maurice Pialat - La gueule ouverte (1974)

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Pialat corta a vida com a morte. Quando a morte nos surge, somos confrontados com a impossibilidade de uma vida que não a respeita, uma vida que rola poluída por esta efeméride, sempre mundana e constante. São-nos dados intervalos de ausência, onde a morte alheia é sugerida de forma episódica, mas profundamente brusca. Quando a morte se assenta, quando se torna evidente e incorruptível, Pialat mostra ainda mais vida. Mais escapadinhas luxuriosas e momentos de desinspirada boçalidade protagonizados por quem apenas pode presenciar a morte de forma inutilmente contemplativa. Há aqui uma troca de ritmos sufocante. Porque se o fim fica mais feio, a vida fica mais igual e permanente. Terminamos a bordo de um carro qualquer, de costas, prontos a ser convocados para a próxima morte, onde iremos comparecer com a lição bem estudada. - J

A ordem da morte - Buffalo Bill (1944)

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Buffalo Bill (1944) não convence pela retórica anti-civilização pouco inspirada. Nem convence pela sinuosa incorporação deste herói nos arrabaldes do entretenimento aristocrático. Convence pela honestidade com que escolhe representar um Joel Mccrae inatamente aureolado e assombrado pela cruz dos feitos que foi sendo levado a protagonizar. E a verdadeira crítica não está no texto enxuto, mas antes nas subtilezas que podem ser encontradas na hipnose coletiva que aquela forma de sociedade escolhe encarnar. Em nome da civilização, marcha a engrenagem de guerra americana, que numa sincronia apoteótica, subjuga o galope de cada cavalo a um objetivo cruelmente comum. Com esta carnificina fabril, contrasta a emocional desordem da investida cheyenne, que colorida de berros catárticos nunca susteve hipótese frente à sistematização da morte. É esta a verdadeira prova de civilização : A avalanche mortuária, que mesmo (especialmente) nos momentos mais fatais insiste em ser ordeira. Chegará se c...

Sr. Traque na Dulac

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  Ontem fui ver o Gossette... Não muito longe de mim sentou-se um flatulento (aka um peidão) que de 5 em 5 minutos sacava do telemóvel para ver as horas. Talvez cronometrasse a frequência... Imaginem o perfume de tais ventosidades... Pronto. Fica o momento homenageado com este humilde retrato.  Porque ir ao cinema também tem destas coisas... Até nunca, Sr. Traque.

Notas breves sobre J. S.

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- Algures na Internet diz que James Stewart entrou em cerca de 80 filmes. Só vi 15, nem um quarto. - Todos os filmes que vi em que ele entra são totalmente dominados pela sua presença. Não consigo içar as calças para ver se as meias que vesti combinam sem pensar no final extraordinário de   The Shop Around the Corner . Ele é um portento da verticalidade e tem um andar pouco gingão. Já muito se disse sobre a sua capacidade de retratar carácter, mas para mim ele   é   carácter, em todos os sentidos que a palavra pode ter. - Apercebi-me há pouco tempo que tenho uma condição psicológica que me impede de não estar presente quando passa um filme com ele. Esta condição pode ser descrita da mesma maneira exemplar que Stanley Cavell utilizou para descrever o seu apelo (de J. S.): “a willingness for suffering”. Sei que vou sofrer muito a ver e ouvir James Stewart, mas sofreria infinitamente mais se não sofresse com ele. A sua disposição para sofrer é inseparável da minha. - Vi há p...

Quanta força

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  Quanta força tem uma pessoa ajoelhada. Para o Rodrigo, que vê as coisas de forma tan bonita. Los más grandes! jajaja, un muy grande abrazo,  de pé e de joelhos, até Lisboa. (Ozu é cruel. Sofrem em interiores, enjaulados; ajoelhados, sentados ou deitados; em pranto, ofegantes, trémulos.)