Jacques Rivette - Pedinchar

São artefactos destes que me fazem sentir grato por constatar que os bilhetes na cinemateca são o único bem que aparenta estar imune a aumentos indexados à inflação.

Carta de Jacques Rivette a Henri Langlois:

 

Paris, 20/09/1951

Meu Senhor,

Tomo a liberdade de lhe escrever, tal como a Sra. Meerson me aconselhou ontem à noite, apenas para lhe expor uma situação bastante delicada (a minha): preso, por um lado, entre o amor pelo cinema que muitas vezes guia os meus passos - surpreender-se-á com isso? - na direção da avenida de Messine, e, por outro, a doença mais funesta que existe neste mundo: a saber, a falta de dinheiro. Não teria a ousadia de expor perante os seus olhos os detalhes das minhas finanças; posso, no entanto, assegurar-lhe que isso me incomoda bastante e me impede de qualquer luxo. Enquanto me foi possível, paguei a minha quota-parte como todos; depois, com a chegada de tempos mais duros, encontraram-se entre os cérberos designados para vigiar as sombras algumas almas caridosas que a minha miséria soube comover, e que oportunamente desviavam o olhar enquanto eu me esgueirava para o reino dos fantasmas. Os hábitos mais funestos adquirem-se rapidamente; e, já que chegou ao fim essa amável liberdade e eis que vos encontrais doravante sujeitos ao domínio de uma administração vigilante e impiedosa, terei eu de renunciar àquilo que é agora para mim o alimento necessário, que uns olhos jamais cansados de querer decifrar os segredos dos antepassados reclamam? Uma palavra sua salva-me e abre-me as portas do templo.

Eis, pois, o essencial: que mais poderia eu invocar em minha defesa? Talvez seja mais prudente deixar na sombra certos filmes, de outrora e mais recentes, que revelam sobretudo muita inexperiência - ainda que neles se adivinhe também esse amor desinteressado pelo cinema que procuro, acima de tudo, nunca trair: sem dúvida será ele, aos seus olhos, o meu melhor defensor.

Assim sendo, como lhe aprouver.

Mas permita-me a ousadia de não temer a sua resposta, e de juntar à expressão dos meus mais respeitosos cumprimentos, agradecimentos que espero que não sejam demasiado prematuros.

Jacques Rivette, 118 rue de Clignancourt, 18e

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