Formas da Violência

Sensivelmente a meio do terceiro filme que Fernando Lopes realizou, Nós Por Cá Todos Bem (1978), ocorre uma transição de o que até àquele momento tinha sido apenas um documentário sobre uma pequena aldeia da Beira Litoral para o que à falta de melhor termo poderíamos chamar uma “docuficção”. Durante um almoço em que a equipa de rodagem do documentário se senta à mesa com os habitantes da aldeia, Zita Duarte entra em cena em frente a um espelho substituindo a entrevistada principal da primeira metade do filme, Elvira Marques. Segue-se um momento musical alegre na cozinha com três criadas (uma delas Zita Duarte) a cantar e dançar entre legumes e tachos uma canção intitulada “Coro das Criadas de Servir”. O que até ao número tinha sido um documentário sobre as implicações sociopolíticas de viver numa aldeia tão fechada e pequena numa altura tão conturbada em Portugal, passou a ser um filme que também aborda preocupações artísticas de Fernando Lopes, que, sem retirar da importância e seriedade da parte documental do filme, não parece ter tido muito interesse em separar estas preocupações. Também não parece ter sido por acaso que a letra da canção do número musical do filme tenha sido escrita por Alexandre O’Neill.


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"Perguntar — como, microfone na mão, se perguntou — a uma velha camponesa transmontana: «A senhora sabe o que é a política?» (Lá do seu universo ela respondeu que não sabia, mas quem, realmente, mostrou que não sabia, cá do nosso universo, foi o perguntador, rapaz de boas maneiras, mas de fracas ideias, um que pensa, afinal, que a água começa nas torneiras...)" (Alexandre O'Neill, "Formas da Violência", Poesias Completas & Dispersos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 372).


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https://www.youtube.com/watch?v=gCEpI2Nr2PA

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