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Formas da Violência

Sensivelmente a meio do terceiro filme que Fernando Lopes realizou,   Nós Por Cá Todos Bem   (1978), ocorre uma transição de o que até àquele momento tinha sido apenas um documentário sobre uma pequena aldeia da Beira Litoral para o que à falta de melhor termo poderíamos chamar uma “docuficção”. Durante um almoço em que a equipa de rodagem do documentário se senta à mesa com os habitantes da aldeia, Zita Duarte entra em cena em frente a um espelho substituindo a entrevistada principal da primeira metade do filme, Elvira Marques. Segue-se um momento musical alegre na cozinha com três criadas (uma delas Zita Duarte) a cantar e dançar entre legumes e tachos uma canção intitulada “Coro das Criadas de Servir”. O que até ao número tinha sido um documentário sobre as implicações sociopolíticas de viver numa aldeia tão fechada e pequena numa altura tão conturbada em Portugal, passou a ser um filme que também aborda preocupações artísticas de Fernando Lopes, que, sem retirar da importâ...

Perfeccionismo moral e Funny Face

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We also say of some people that they are transparent to us. It is, however, important as regards this observation that one human being can be a complete enigma to another. We learn this when we come into a strange country with entirely strange traditions; and, what is more, even given a mastery of the country’s language. We do not understand the people. (And not because of not knowing what they are saying to themselves.) We cannot find our feet with them.  (Ludwig Wittgenstein, Philosophical Investigations ) Uma intuição inicial que liga a epígrafe de Wittgenstein ao filme musical Funny Face (Stanley Donen, 1957), encontra-se na última frase. Quero, para já, sugerir que, embora não seja algo que tenha uma relação crucial com o filme, a metáfora de Wittgenstein, quando tomada de forma literal, pode ser aplicada à dificuldade que as personagens do filme têm em se relacionar. Em parte, encontrar os pés com outras pessoas é, metafórica, mas também literalmente, o que acontece no film...

Notas breves sobre J. S.

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- Algures na Internet diz que James Stewart entrou em cerca de 80 filmes. Só vi 15, nem um quarto. - Todos os filmes que vi em que ele entra são totalmente dominados pela sua presença. Não consigo içar as calças para ver se as meias que vesti combinam sem pensar no final extraordinário de   The Shop Around the Corner . Ele é um portento da verticalidade e tem um andar pouco gingão. Já muito se disse sobre a sua capacidade de retratar carácter, mas para mim ele   é   carácter, em todos os sentidos que a palavra pode ter. - Apercebi-me há pouco tempo que tenho uma condição psicológica que me impede de não estar presente quando passa um filme com ele. Esta condição pode ser descrita da mesma maneira exemplar que Stanley Cavell utilizou para descrever o seu apelo (de J. S.): “a willingness for suffering”. Sei que vou sofrer muito a ver e ouvir James Stewart, mas sofreria infinitamente mais se não sofresse com ele. A sua disposição para sofrer é inseparável da minha. - Vi há p...