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Passeio com Johnny Guitar

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Vem de branco, com a calma de um cansaço repetido. Traz consigo a limpeza da lixívia que limpa um cagadouro. Fuma um cigarro, e surge a necessidade de dizer algo. Quando a rua está demasiado vazia, sente-se a claustrofobia do encontro, a obrigatoriedade do reconhecimento do desconhecido. Da boca, do peito, tirado lá do fundo, sai um irónico “Muito boas noites”. O plural não é força de expressão. É manifestação da circunstância em que se encontra. É plural, porque noites como aquela não existem no singular. São rotundas, onde se dão voltas a uma velocidade constante, encarando as mesmas saídas às mesmas horas de dias diferentes. Entra em casa, dirige-se à janela com a casualidade de quem cumpre um ritual, e observa a vizinha da frente, que num quarto bem iluminado e decorado com flores, escova os cabelos coberta da ingenuidade de um manequim de montra. Quem sabe se sofre da mesma sina que ele. Não interessa. Na vastidão de uma cidade, há espaço para a correspondência de rituais alhe...

No fundo, Bresson pintava montanhas

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«Cézanne's [ Bresson's ] still life is distinctive through its distance from every appetite but the aesthetic-contemplative. Cézanne [ Bresson ] preserves a characteristic meditativeness and detachment from desire. [...] The subject seems to have been reduced to a still life. He does not communicate with us; the features show little expression and the posture tends to be rigid. It is as if the painter has no access to the interior world of the sitter, but can only see him from outside. The rhytm of the brush stroke shifted from the great drive of impulse to the steadier flicker of sensations; the stimulus came more from outside than from within. The big forms were broken up or interrupted by little touches; composition lost its dramatic sweep.  [ Do exterior para o interior, o gado que fala morreu ]. [...] His vision is directed towards small things which break up or interrupt the large continuous forms, like the passive eye that delights in the distractions of the unexpected a...

Negação sentimental

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Na representação de um amor hesitante, é frequente enfatizar a aparente desconexão que se verifica entre o corpo e o sentimento, que tão amiúde caracteriza estes estados de espírito. Digo estado de espírito, porque nestas situações, o sentimento tem tanto de diáfano como um qualquer espectro. Vive-se na negação, e, frequentemente, anda-se na direção oposta da vontade, como se o caminho para o inevitável fado que nos confrontará passasse obrigatoriamente pelas ruas estreitas da repressão e frustração. Os recursos utilizados para a expressão desta diabólica trama são múltiplos, mas em Goodbye Again (1961) de Anatole Litvak, assumem novas e amplas dimensões. Na magnífica sequência em que Ingrid Bergman chora ao conduzir para longe do homem que ama, o alheamento do sentimento que sabe que sente é tal, que se torna confuso de onde vem aquele choro: Será que até o céu tem pena de si? E com este recurso que tem tanto de kitsch como de eficiente/tocante, marca-se o caminho tão frequenteme...

The Passageway

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  Ein Tor, Paul Klee, 1939 "And now, Major Amberson was engaged in the profoundest thinking of his life. And he realized that everything which had worried him or delighted him during this lifetime, all his buying and building and trading and banking, that it was all trifling and waste - beside what concerned him now. For the Major knew now that he had to plan how to enter an unknown country, where he was not even sure of being recognized as an Amberson."

Poeira

Sempre achei muito bonita a poeira nos filmes do John Ford, ou melhor, as nuvens de poeira escavadas pelos cavalos em correria. No western, este género do plano geral, parece tudo geológico, sedimentar. As personagens andam, vivem e sofrem as suas paixões quase sempre em cima duma grande paisagem deserta que parece resultado de estratos geológicos uns em cima dos outros, acumulados e sedimentados ao longo dos séculos. Camadas e camadas de história*, com uma potência imanente que pode ser revelada às vezes de forma tão simples como mostrá-la por mediante de uma panorâmica comedida (não admira os Straub-Huillet gostarem tanto do Ford). Estas nuvens erguidas pelas ferraduras parecem agrupamentos das partículas da camada mais à superfície, mais recente da História, exalações físicas despertadas pelo movimento. Se calhar por isso é que gosto e penso tanto naqueles planos contra-picados dos filmes do Ford em que os cavelos nos atropelam e olhamos para o céu através destas nuvens**. Nos segun...

Wiseman, o fatalista

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Não é a realidade filmada que espanta, é a associação de imagens, a montagem-critério, a dedicação à composição antagónica derivada da associação de momentos que o nosso lado mais voyeur nunca escolheria acompanhar. Wiseman, criador de um tempo só seu, termina da forma mais assombrosa possível: Uma missa bizarra, planos de casas tão opulentes de simples, e 4 planos brevíssimos do cemitério. Porque a morte é um flash, no meio de uma sopa de banalidades a que se tem vindo a chamar de “vida”.   - João

Sobre Les Mauvaises Recontres de Alexandre Astruc

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Sobre Les Mauvaises Rencontres (1955), dizia Rivette que se tratava de um filme de jovens, feito para jovens, por um jovem. Olhando para o paradigma atual, a juventude abandonou esta linguagem, e retrospetivamente, concluímos se calhar, que falava de uma juventude mais poética, onde o significado de tudo está nas pequenas subtilezas e poder encantatório de cada movimento.  Aos olhos de um jovem atual (penso ainda poder afirmar com segurança pertencer a esse grupo), Astruc marca pela diferença. Pela maturidade que aparenta encarnar, pelo domínio e controlo de tudo o que faz, que facilmente se pode considerar como estando associado a um rigor hoje estrangeiro. No seu famoso manifesto, Astruc falava da certeza da democratização da imagem em movimento, da proliferação dos pequenos formatos. Nesse sentido, em pouco ou nada falhou. No entanto, as consequências desse caminho, foram a inevitável insignificância associada a 90% (número otimista) do que se filma. Vivem-se tempos onde a refle...