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Nico - Wrap Your Troubles in Dreams

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  Poucos segundos separam os dois últimos segmentos siameses de Chelsea Girls. Primeiro, Pope Ondine , personalidade já conhecida deste épico da vida interior. A rispidez do discurso anfetaminado de Ondine, inicia-se com um indeciso, mas direto “I’m on? All right?”. Uma interrogativa que coloca em cheque a ingenuidade de qualquer um que queira acreditar no teor orgânico de um momento Warholiano. Porque no fundo, o que interessa não é necessariamente a verdade, nem a verdade filmada, mas a capacidade de reconhecer que a presença da câmera cria um momento único, capaz de ocupar um espaço infinitesimal que separa o consciente do subconsciente do inconsciente. É aí que muito do cinema de Warhol se movimenta: Num espaço (leia-se volume), nos seus limites  a priori e entre raccords não sugeridos, nunca forçados. Poucos segundos depois, surge Nico, filmada de um ângulo meticuloso, a chorar. Apanhada num sofrimento in medias res , na mágoa vivida no singular, nota-se acima de tudo...

Carne para canhão

O último Shimizu tem uma das cenas mais violentas que me lembro de ver num filme há muito tempo, no cinema clássico japonês rivalizado apenas pela queda nas escadas no Galinha no Vento do Ozu. Nesta cena, donde poderíamos escrutinar mil detalhes, o que mais permaneceu na minha memória foram as bonecas. O rapaz enraivecido ataca a meia-irmã utilizando sem grande pensamento um conjunto de bonecas como carne para canhão. No fim da cena, após a violência do rapaz e o silêncio ensurdecedor da madrasta (ou, a violência dela), o Shimizu faz uma panorâmica que começa nesta mulher e acaba numa visão picada das bonecas esquartejadas e despedaçadas do chão. Num movimento tão curto, Shimizu dá à imagem destes corpos imóveis descartados o mesmo chocante e intenso poder de uma foto aérea de guerra (ou do plano mais  famoso do Gone with the Wind ). Corpos que no seu devir-arma não são vistos como corpos, mas que depois da sua destruição são vistos como cadáveres. -Vasco

Luiz Pacheco - Animatógrafo

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Fritz Lang, "You and Me"

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  Para a bondade, a semelhança. Para a avareza, o contraste. É difícil precisar com uma fórmula a personalidade de Fritz Lang: cineasta «expressionista», minucioso com o cenário e a iluminação? Um pouco superficial. Arquiteto supremo? Isso parece cada vez menos verdadeiro. Admirável diretor de atores? Sem dúvida, mas e o que mais? Eu proponho o seguinte: Lang é o cineasta do conceito, mas não entendo conceito como abstração ou estilização, e sim como necessidade (necessidade que deve poder contradizer-se a si mesma sem perder o seu sentido de realidade): mas não se trata de uma necessidade exterior, mas sim aquela que nasce do movimento próprio do conceito. - Jacques Rivette, cahiers du cinéma, n76, Novembro de 1957 Frames extraídos de "You and Me" (1938) -João Lima

o museu da gulbenkian fechou para obras

O rei Ventura, que se recostou num canapé estilo Luís XIV, perante um Rubens, olhou para a parede que construíra e disse que já não estava em condições.  Espera-se que se conserve a parede, porque Ventura só há um. Rodrigo

Brief Thoughts on Hawks' Scarface

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“The people, Italian gangsters and their tough, wisecracking girls, are quite beautiful, as varied and shapely as those who parade through Piero’s religious paintings. Few movies are better at nailing down singularity in a body or face, the effect of a strong outline cutting out impossibly singular shapes.”   -Manny Farber “Out of that whirlwind no voice spoke and the pilgrim lying in his broken bones may cry out and in his anguish he may rage, but rage at what? And if the dried and blackened shell of him is found among the sand by travelers to come yet who can discover the engine of his ruin?” - Blood Meridian Desire is the motor of the world, and objects of desire cannot ever be shared. In Scarface , those who touch upon force to obtain these objects enter into a spiral of death. Paul Muni, despite his constant wielding of force, is traversed by fear and fragility in the depths of his being. He is a man whose wounds will not fully heal and will forever scar his flesh. And not hav...

és tu sim senhora, monsieur Carax

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  «Work in Progress» é a frase que abre o primeiro plano do novo filme de Leos Carax, fingindo ser um aviso à navegação. Depois de um ponto de interrogação se sobrepor à imagem inicial, compreendemos o falso dilema: o filme está feito, «Work is Done», respondemos nós. Quer tenha ou não cumprido a encomenda do Museu Pompidou, que lhe pediu um filme-retrato capaz de responder à pergunta: «Leos, où êtes-vous?» — o resultado é um auto-retrato. Tudo é familiar para quem conhece a sua obra, mas, desta vez, Carax esconde-se menos — afinal, o tema é ele próprio. Talvez por isso tente desprender-se desse reconhecimento já no título, como que envergonhado. «Oui, ce n’est pas toi, mais c’est à toi», respondemos nós. Sem surpresa, a resposta à questão do Pompidou é que Carax ainda anda pelo cinema. O filme acaba por ser uma descrição da arte que pratica. É um retrato do cinema segundo Carax — é um filme inconfundivelmente seu. Ainda assim, há quem veja um filme de Godard, acusando-o de imitaçã...