Nico - Wrap Your Troubles in Dreams

 

Poucos segundos separam os dois últimos segmentos siameses de Chelsea Girls.

Primeiro, Pope Ondine, personalidade já conhecida deste épico da vida interior. A rispidez do discurso anfetaminado de Ondine, inicia-se com um indeciso, mas direto “I’m on? All right?”. Uma interrogativa que coloca em cheque a ingenuidade de qualquer um que queira acreditar no teor orgânico de um momento Warholiano. Porque no fundo, o que interessa não é necessariamente a verdade, nem a verdade filmada, mas a capacidade de reconhecer que a presença da câmera cria um momento único, capaz de ocupar um espaço infinitesimal que separa o consciente do subconsciente do inconsciente. É aí que muito do cinema de Warhol se movimenta: Num espaço (leia-se volume), nos seus limites a priori e entre raccords não sugeridos, nunca forçados.

Poucos segundos depois, surge Nico, filmada de um ângulo meticuloso, a chorar. Apanhada num sofrimento in medias res, na mágoa vivida no singular, nota-se acima de tudo o contraste entre o silêncio que consigo traz, e o ruído que ao seu lado direito habita.




Este contraste muda tudo. Tinge de honestidade o sofrimento desta mulher, portadora de uma beleza estrangeira (sejamos nós naturais de onde quer que seja), dando-lhe o peso de uma tristeza à Garrel, costumeiramente tão silenciosa, tão filmada de perto, tão carregada de sombra, tão carregada de luz (tão carregada de contraste!), tão filmada em interiores, tão interior, tão virada para si mesma, fazendo-nos sentir indiscretos por sermos dela testemunha.

E do nada, pouco interessa* a marginalidade que Ondine encarna, a verborreia narcótica, a agressividade histérica. Porque ao seu lado, chora uma pessoa, tão real, tão feita de carne, tão cheia de luzes.

Depois disto, tem o artista a liberdade de pintar a tristeza com as cores e padrões que entender. Mas antes, escolhe mostrá-la crua, não disfarçada, (des)enquadrada da vizinhança que lhe é imposta.

Faça-se o ruído que se queira, o silêncio será sempre ensurdecedor. 


*Seja o “pouco”, por vezes, tanto!



(https://www.youtube.com/watch?v=qaeWYkICyyI)

- João

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