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Miguel Gomes, ou a apologia do particular

  Num país onde é proclamada (e provavelmente com razão) a retórica de que o cinema é coxo, institucionalmente ignorado, reduzido a um número de realizadores e obras que não superam os números de produção daquilo que se faz na Galiza, e onde, para o público comercial, a frase "é um filme português" é sinónimo de um mostrengo camoniano do tamanho e feiura de um buraco na calçada, qualquer vitória internacional atingida por um dos nossos, é vivida de forma exacerbadamente viva e inflamada. É bonito ver essa união, como quem abraça um desconhecido no rescaldo de uma vitória da seleção de futebol. Mas não deixa de ser curioso que a discussão sobre o objeto vitorioso passe para o plano secundário, sendo vista de forma unilateral, tabu, ou até mesmo não desejada. Analisa-se a vitória, vitória essa que nunca se esperou, ou em quem ninguém apostava, e deixamos de lado a vontade, ou sequer a circunstancialidade que possa propiciar a análise livre desse mesmo objeto. Criticar/analisa...