Maurice Pialat - La gueule ouverte (1974)
Pialat corta a vida com a morte. Quando a morte nos surge, somos confrontados com a impossibilidade de uma vida que não a respeita, uma vida que rola poluída por esta efeméride, sempre mundana e constante. São-nos dados intervalos de ausência, onde a morte alheia é sugerida de forma episódica, mas profundamente brusca. Quando a morte se assenta, quando se torna evidente e incorruptível, Pialat mostra ainda mais vida. Mais escapadinhas luxuriosas e momentos de desinspirada boçalidade protagonizados por quem apenas pode presenciar a morte de forma inutilmente contemplativa. Há aqui uma troca de ritmos sufocante. Porque se o fim fica mais feio, a vida fica mais igual e permanente. Terminamos a bordo de um carro qualquer, de costas, prontos a ser convocados para a próxima morte, onde iremos comparecer com a lição bem estudada. - J