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A mostrar mensagens de fevereiro, 2026

The Roaring Twenties - Uma questão de escala

Dois pequeninos corpos feitos um, numa escadaria imensa, abordados numa sórdida noite de ano novo por um ignorante diligente, para quem a miséria alheia é fonte de trabalho de escriturário.  A morte enquanto fim constitucional da vida, passo último para quem nesta trama decidiu manter-se inoxidável.  Um travelling frontal, que tem em si a garra do tempo, capaz de tornar aqueles ora grandes apaixonados em mirrados restos de uma ida fartura.  Feitas as contas, há aqui um erro contabilístico impossível de saldar.  Para todas as coisas que não o sentimento, miséria ou glória são apenas uma questão de escala.

Perfeccionismo moral e Funny Face

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We also say of some people that they are transparent to us. It is, however, important as regards this observation that one human being can be a complete enigma to another. We learn this when we come into a strange country with entirely strange traditions; and, what is more, even given a mastery of the country’s language. We do not understand the people. (And not because of not knowing what they are saying to themselves.) We cannot find our feet with them.  (Ludwig Wittgenstein, Philosophical Investigations ) Uma intuição inicial que liga a epígrafe de Wittgenstein ao filme musical Funny Face (Stanley Donen, 1957), encontra-se na última frase. Quero, para já, sugerir que, embora não seja algo que tenha uma relação crucial com o filme, a metáfora de Wittgenstein, quando tomada de forma literal, pode ser aplicada à dificuldade que as personagens do filme têm em se relacionar. Em parte, encontrar os pés com outras pessoas é, metafórica, mas também literalmente, o que acontece no film...

Dorsky (rascunho)

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  Dorsky arranja uma forma. Sem utilizar palavras que são as do dia, ou mesmo, embora pudesse ser algo mais próximo disso, as da noite. É uma espécie de combate de dentro do analfabetismo para fora. Não são só imagens e cortes, é a comunhão da sombra e do silêncio, com a luz e a palavra. A luz entrega o mundo; a sombra enche-o, comunga-o.  (Pascoaes) Essa forma, mais do que do sermos multidões, vem do sentirmos ser multitudes. Do sentirmos ser todos, enquanto somos pedras, árvores, frutos, animais, terras, mares e mundos; luas, estrelas, dias e noites; luzes e sombras; verbos e silêncios - e eis tudo. Acontece no Triste - palavra vertical capaz de evocar até ao seu contrário. Esse título, que se nos mostra no início, contamina tudo; e esse tudo contrasta - ou melhor, comunga. O silêncio é a alma nua das cousas; nua e petrificada. Por isso, ele pesa sobre o mundo.  (Pascoaes) […] É preciso sentir, sofrer todo o martírio, De cada cousa obscura o espírito alcançar… Conversar...

Maurice Pialat - La gueule ouverte (1974)

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Pialat corta a vida com a morte. Quando a morte nos surge, somos confrontados com a impossibilidade de uma vida que não a respeita, uma vida que rola poluída por esta efeméride, sempre mundana e constante. São-nos dados intervalos de ausência, onde a morte alheia é sugerida de forma episódica, mas profundamente brusca. Quando a morte se assenta, quando se torna evidente e incorruptível, Pialat mostra ainda mais vida. Mais escapadinhas luxuriosas e momentos de desinspirada boçalidade protagonizados por quem apenas pode presenciar a morte de forma inutilmente contemplativa. Há aqui uma troca de ritmos sufocante. Porque se o fim fica mais feio, a vida fica mais igual e permanente. Terminamos a bordo de um carro qualquer, de costas, prontos a ser convocados para a próxima morte, onde iremos comparecer com a lição bem estudada. - J